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Sweet Tooth - Crítica do Chippu

Previsível em elementos pós-apocalíptico, série da Netflix e DC Comics conquista pelo coração do seu protagonista.

Como tantas outras ficções distópicas, a história em quadrinho Sweet Tooth, escrita e desenhada por Jeff Lemire para a Vertigo e DC Comics, parece profética quando observada através das lentes dos últimos 15 meses. Lançada em 2009, ela trata do que acontece com a Terra quando um vírus letal surge e devasta a população mundial ao mesmo tempo que crianças híbridas entre humanos e animais nascem. Foram esses bebês que causaram a pandemia conhecida como Flagelo e o Grande Esfacelamento que a seguiu? Ou seria essa nova espécie fruto do micróbio? A resposta, tanto na HQ quanto na série que a adapta na Netflix, depende da índole dos personagens.


Não há muito para ser desvendado sobre a premissa de Sweet Tooth. Como outras narrativas semelhantes - de A Estrada até The Last of Us - ela coloca lado a lado uma criança e um homem cansado por conta das atrocidades de sua vida numa jornada para cruzar um Estados Unidos devastado onde, adivinhem, as principais ameaças são os humanos. O diferencial está na bondade, esperança e até fofura do protagonista Gus (River Rain Jarvis na versão com quatro anos de idade, Nixon Bingley com sete anos e, enfim, Christian Convery com 10 anos, ao longo de todos os oito episódios da primeira temporada) insiste em manter mesmo diante das tristezas ao seu redor.


Grande parte do prazer de Sweet Tooth está em descobrir as peculiaridades de seu mundo, então essa crítica será leve em detalhes da história, mas a premissa é simples. Gus, híbrido de cervo e humano, viveu por uma década isolado da humanidade pós-apocalíptica por seu pai, Richard (um bondoso Will Forte), sabendo apenas que para além da cerca de sua casa há pessoas com má intenções, fogo, morte e, quem sabe, sua mãe Birdie. Quando uma tragédia devasta seu lar, o menino decide se aventurar em busca da figura materna e gera uma aliança com Tommy Jepperd (Nonzo Anozie), apelidado por ele Grandão, um ex-jogador de futebol americano sem nenhum desejo de ter um companheiro de estrada.


Depois de 2020, diversas características de Sweet Tooth espelham com bizarra precisão a realidade. Os híbridos são, mesmo sem provas concretas, culpados pelo Flagelo e por isso, mesmo uma década depois, se tornaram alvos da facção ultranacionalista conhecida como Últimos Homens, liderada pelo temível General Abbott (Neil Sandilands). Por outro lado, em cenas de flashbacks vemos como a pandemia afetou diversas pessoas, a mais memorável delas sendo o doutor Aditya Singh (Adeel Akhtar, cujo enredo e atuação são tão dignos de uma série quanto a história principal de Gus), que desistiu da medicina após muitos dias e noites no hospital decidindo entre quem viveria e morreria, e agora se vê forçado à prática para salvar uma pessoa amada. Soa familiar?


Seja no preconceito, na medicina ou até mesmo em pequenos detalhes como o uso de máscaras, esses elementos de Sweet Tooth deixaram de se tornar fruto da imaginação de Lemire, infelizmente, e viraram fatos para quem assiste ao Jornal Nacional. Um dos acertos da narrativa é na insensibilidade de pessoas, no descuido em usar máscaras, no egoísmo acelerando a queda da sociedade moderna. Como o narrador da série diz em certo momento, o que devia ter nos unido foi exatamente o que mais nos separou.


Como, então, Sweet Tooth faz para se tornar tão… carinhosa? Depois de mais de um ano vivendo em meio à pandemia, com mais de 460 mil mortos no país, meu consumo de ficções pesadas diminuiu consideravelmente. Basta o sofrimento da realidade. A julgar pela sinopse, a série poderia facilmente se encaixar nisso, mas Gus faz conosco o mesmo que faz com os personagens o acompanhando.


O segredo de Sweet Tooth é que a tristeza do mundo só deixa mais forte a bela índole de seu protagonista. Jepperd, como quem está familiarizado com as obras distópicas supracitadas, é conquistado pouco a pouco pela doçura do garoto. Gus está descobrindo o mundo, e a maneira pela qual foi criado por Richard o impede de ver outra coisa além da bondade e potencial das pessoas. Isso o leva a situações perigosas, mas também abre os olhos de pessoas cicatrizadas pelo ceticismo. Ele se impressiona ao ver girafas, explode de alegria ao provar chocolate e quer, acima de tudo, encontrar mais crianças híbridas. Todos nós entendemos o desejo de não se sentir “o estranho.”


Convery nos ganha apenas pela fofura como fala e se expressa os criadores da série, Jim Mickkle e Beth Schwartz, parecem estar plenamente cientes do poder de tela do jovem ator e o usam muito bem. Há alguns momentos nos quais a dupla exagera a mão na doçura, colocando certas músicas e cenários para tentar nos induzir às lágrimas, mas quando eles confiam apenas na narrativa e atuação, tanto de sua estrela como do gigante Anozie, interpretando com eficácia o papel do valentão intimidador com coração de ouro, Sweet Tooth se mostra profundamente cativante, ao ponto de cobrir algumas falhas óbvias.


Não há como fugir de alguns fatos. Boa parte da narrativa de Sweet Tooth é previsível, até mesmo nas reviravoltas. Essa também é uma série cuja natureza lembra mais um filme de oito horas do que algo episódico, deixando alguns capítulos meio longos, cansativos e repetitivos (conte quantas vezes o narrador falará como uma aparente crise em nossa vida revelará algo bom, e vice-versa), problema comum em produções da Netflix. Flashbacks para cada personagem principal, como Singh, Jepperd, Ursa (Stefania LaVie Owen) - líder de um exército de adolescentes defensores de híbridos - e Aimee (Dania Ramirez) - criadora de uma reserva para as crianças-animais, onde mora com a filha Wendy (Naledi Murray) - e a maneira com a qual as vidas dessas pessoas se cruzam. Você verá muito disso vindo, mas ainda há qualidades e elementos bem executados em cada uma dessas ferramentas narrativas.


Na verdade, é quando Sweet Tooth termina de mover as peças de lugar, tirar personagens dos lugares onde estão seguros e fazer as conexões - mesmo previsíveis - necessárias para avançar o andamento da história, que o mundo abre as asas. Tanto quanto o sentimento caloroso em sua essência, essa é uma série cujo universo se torna mais rico à medida que entendemos os pormenores usados para diferenciá-la de outros contos apocalípticos. Ao final da primeira temporada, é difícil evitar o sentimento de termos visto o ato inicial de um filme, andado apenas a primeira milha, mas ao mesmo tempo somos convencidos, pouco a pouco a querer passar mais tempo com esses personagens.


Não devemos julgar séries pelo que elas podem ser, ainda mais numa indústria na qual produções são canceladas regularmente, mas o potencial de Sweet Tooth é palpável. Isso significa, por um lado, que a primeira temporada não mostra os eventos mais interessantes da história, mas, simultaneamente, deixa um gosto de “quero mais”. Por si só, isso não é suficiente para salvar a primeira temporada. Felizmente, os heróis, vilões e os relacionamentos entre eles são o tempero necessário para estes episódios iniciais sucederem em nos conquistarem. Onde o roteiro não se destaca, as pessoas brilham. Em um mundo tão parecido com o nosso, é refrescante ver algo com um coração determinado em ter esperança.


Bondade e misericórdia são, talvez, ideias antiquadas em um mundo como o nosso. No de Sweet Tooth, ainda mais, mas como Aimee deixa claro em certo momento, é justamente a capacidade dos híbridos de acreditar nesses valores que os tornam melhores que nós e fazem desejar passar mais tempo com Gus. O mundo ao seu redor se torna mais rico por conta dele, algo que o menino repetidamente prova para Jepperd, Ursa, e para nós.