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O Legado de Júpiter - Crítica do Chippu

Arrastado, inflado e sem muita profundidade, o Volume 1 de Legado de Júpiter na Netflix se contenta em subverter temas de maneiras batidas e falha na tentativa de criar um mundo interessante

O mundo de adaptações de super-heróis está em processo de expansão. Há uma semana, falamos sobre Invencível, que se juntou a The Boys no hall de séries baseadas em HQs que, por sua vez, procuram revisar temas e abordagens clássicas de personagens como o Superman. Agora, depois de suas produções da Amazon, é a vez da Netflix entrar no jogo com O Legado de Júpiter, adaptado do quadrinho de mesmo nome de Mark Millar e Frank Quitely. De todas elas, entretanto, essa é a mais fraca.


Arrastado, inflado e sem muita profundidade, o Volume 1 de Legado de Júpiter na Netflix se contenta em subverter temas de maneiras batidas e falha na tentativa de criar um mundo interessante, mantendo suas discussões políticas e sociais na superficialidade e sem dar à audiência um personagem carismático com quem se conectar.


A HQ na qual essa primeira temporada, que na verdade serve mais como um prequel dos quadrinhos do que de uma adaptação direta, não é humilde quando o assunto é política e sociedade. Obama é mencionado por nome, a crise econômica e social dentro dos EUA é o tema central, e Millar, seguindo uma fórmula como sempre fez, não deixa de lado sua ousadia. O texto do roteirista nunca foi o mais profundo, e não é aqui também, mas ele usa essa audácia para dar a impressão de profundidade. No mínimo, ele não tem medo de abordar ideias grandes.


Em teoria, Millar e a Netflix se combinam perfeitamente, não a toa a streamer comprou a editora do roteirista, Millarworld. Ambos adoram uma fórmula de sucesso. Mas esta adaptação, comandada por Steven S. DeKnight (Círculo de Fogo: A Revolta, Demolidor) parece uma leitura das mais rasas possíveis do material base. É como se o produtor tivesse lido o quadrinho com pressa, anotado palavras-chave e construindo a série.


No mundo do Legado de Júpiter, super-heróis surgiram quando o Superman desta HQ, Utópico, ou Sheldon (Josh Duhamel), seu irmão Walt (Ben Daniels), sua futura esposa Grace (Leslie Bibb), seu melhor amigo George (Matt Lanter) e outros foram em busca de uma ilha misteriosa nos anos 30, logo após a grande depressão da economia norte-americana, e voltaram de lá com super poderes. Eles ajudaram a moldar o país, seguindo seu precioso Código (não governar, não matar) e mantendo a nação firmada nos valores da época.


Agora, o surgimento de uma nova geração de heróis, incluindo os filhos de Sheldon e Grace, Brandon (Andrew Horton) e Chloe (Elena Kampouris) - o primeiro desesperado para ter a aprovação do pai, a segunda totalmente rebelde - estão questionando o Código, perdendo a fé na geração anterior e vendo o país à sua volta entrar em mais um colapso. Bom, pelo menos é o que eles nos dizem. A série nunca faz um bom trabalho de construir o mundo além dos poderosos membros da União. Nós somos constantemente lembrados que a América está em caos, a sociedade está abandonando seus valores, o povo está cético... mas nunca vemos isso. Nunca vemos o povo.


O Legado de Júpiter tem apenas um grande personagem sem poderes, Hutch (Ian Quinlan), filho de George, e não é a toa ele é um dos pontos mais fortes da série, trazendo uma perspectiva e dinâmica diferente tanto na hora da ação - ele não pode simplesmente voar e socar para vencer uma luta - quanto no drama, já que seus interesses e obstáculos são totalmente diferentes dos heróis. De resto, nossa entrada no mundo fica nas costas de Sheldon. Duhamel nunca foi o ator com mais alcance do mundo, mas ele tende a ser carismático em papéis mais simples. Utópico parece ser demais para ele, mas o roteiro nunca o ajuda.


As cenas de flashback nos anos 30 o mantém normalmente num estado de mania e loucura ou com uma personalidade arrogante e inocente, e os momentos do tempo presente o mostram como alguém frio, sem lembrar o nome real dos outros membros da União e não se esforça para ver as coisas por outros olhos. Se Sheldon deve ser nossa porta, O Legado de Júpiter é impenetrável. Brandon, que na HQ é ainda mais rebelde que a irmã, aqui é apenas um eco do pai, tão patético quanto ele se sente, e sem alguma personalidade além dos dramas clássicos de filhos de heróis. Horton parece manter o mesmo rosto durante toda a atuação, e mais uma vez não há um esforço para aprofundar o protagonista. Quem se salva é normalmente Walt, em grande parte por conta do ótimo ator que Daniels é, mas no século 21, a maquiagem usada para envelhecê-lo esconde qualquer vislumbre de expressão facial, assim como com Duhamel, impedindo ambos de abrirem suas asas.


Felizmente, O Legado de Júpiter tem apenas oito episódios, muitos na faixa de 35 minutos, mas assim como outras produções da Netflix, ela parece ser longa demais. Aqui, isso vem de um péssimo trabalho de adaptação que transforma cenas de uma edição da HQ num arco da temporada inteira, prolonga dramas pessoais sem sentido, esconde personagens durante horas para não avançar suas histórias e fabrica obstáculos para ganhar tempo. É de imaginar que a já confirmada segunda temporada siga exatamente do ponto inicial do quadrinho, mas a escolha ainda é bizarra e quebra totalmente qualquer sensação de ritmo ou aceleração, ainda mais com cenas de ação sem tempero ou impacto.


De todas as obras que procuram fazer uma espécie de revisão na forma como vemos super-heróis, O Legado de Júpiter talvez tinha o maior potencial para ser algo grandioso, mas sem as garras políticas e sátiras de The Boys ou a diversão e realismo de Invencível, ela termina como algo mais parecido com uma versão genérica do gênero que tanto quer subverter, do que com alguma adição realmente nova ao cânone.