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Mulher-Maravilha 1984 - Crítica do Chippu

Roteiro bagunçado impede que o filme decole como sua heroína

Grande parte do que torna o Mulher-Maravilha original especial é a simplicidade. Não é à toa que a diretora Patty Jenkins referencia tanto o Superman de Richard Donner como um exemplo de filme de herói. Na origem de Diana nos cinemas, vemos isso com imagens marcantes como a heroína, toda colorida e brilhante, literalmente se colocando no meio do tiroteio cinzento da guerra, avançando o heroísmo em meio à decadência humana.


Mas simples não é um adjetivo para descrever a continuação, Mulher-Maravilha 1984, que este mês chegou nos cinemas interacionais - incluindo brasileiros - e recentemente chegou aos EUA estreando simultaneamente nas telonas e no streaming do HBO Max. Como tantas sequências, o novo filme cai nas armadilhas de que ter mais e ser maior automaticamente significa ser melhor. O roteiro bagunçado não consegue usar suas longas 2 horas e meia de duração para trabalhar bem todos os temas, e como consequência, 1984 nunca decola como sua heroína titular.


Isso não significa que o filme é um fracasso. Ainda há muito para curtir em Mulher-Maravilha 1984, particularmente quando falamos da protagonista. Gal Gadot continua ótima no papel de Diana Prince. É difícil dizer se ela é uma atriz excelente ou não, mas ela certamente se mostra mais do que capaz de transmitir a decência e caráter que esse tipo de personagem tem (pense em Christopher Reeve no Superman de 78 ou no Chadwick Boseman em Pantera Negra). Há uma energia, uma aura e um carisma que estampam cada minuto de Gadot em cena.


Jenkins parece reconhecer que os heróis da DC funcionam como ícones quase religiosos dentro do seu mundo. O universo Marvel, tanto nos quadrinhos quanto nos filmes, sempre foi mais positivo (tirando quando o assunto são Mutantes) e, como resultado, seus heróis parecem pertencer à realidade. São frutos dela. Eles se encaixam bem, tanto uns com os outros como com as cidades ao seu redor. A DC é a casa dos deuses. Jerry Siegel e Joe Schuster, dois judeus, criaram no Superman o messias que tanto esperavam. Diana é filha de Zeus.


Por isso, Jenkins, assim como no primeiro filme, reconhece que o principal obstáculo que Diana deve enfrentar é o mundo ao seu redor. Nós somos os vilões. Para muitos essa visão cínica de uma humanidade caída pode ser um problema (para mim, especialmente após 2020, ela parece cada vez mais apropriada), mas no filme é ela que torna a presença da Mulher-Maravilha algo tão grandioso e heróico. Esse filme mostra espírito quando vemos a protagonista saltando pelas nuvens e realizando feitos incríveis.


A história envolve uma pedra que realiza desejos. Eventualmente, a humanidade toda ganha acesso a esse poder e vemos que a maioria dos pedidos são egoístas e destrutivos, revelando uma vontade corrupta nos seres humanos que precisa de redenção. Diana precisa destruir a fonte dessa magia ou fazer com que todos abram mão do que pediram. Nunca é agradável ver a arte acusando a sociedade do seu pecado e egocentrismo, mas especialmente no contexto de heróis maiores do que a vida, essa direção continua fascinante como no primeiro.


Para Diana, o desejo realizado é trazer Steve Trevor (Chris Pine) de volta à vida. A dupla continua com uma química romântica e cômica de primeira qualidade e é responsável pela melhor cena do longa todo, quando o famoso jato invisível é apresentado.


Mas nem todos os temas são tão bem trabalhados assim. Há mais dois personagens importantíssimos na história - Barbara Minerva (Mulher-Leopardo) de Kristen Wiig e o vilão Max Lord, de Pedro Pascal. Apesar de longo, 1984 não consegue trabalhar bem os três personagens principais da história como deveria. Gadot acaba compensando por muita coisa em Diana, e ajuda que já a vimos em outros filmes, incluindo sua origem. Pascal está claramente se divertindo como antagonista e é muito mais interessante do que boa parte dos inimigos que enfrentam os heróis do cinema moderno. A atuação dele, entretanto, é necessária para preencher alguns buracos no seu aprofundamento e motivações.


Wiig é quem recebe o pior dos tratamentos. No início, quando a personagem é mais divertida e bagunaçada, fica claro que a atriz está em casa. Mas em atuação e tema, sua transformação na Mulher-Leopardo custa caro à trama. Em certo momento, sua decadência emocional é comunicada através de uma surra que ela dá em um estuprador, o que passa uma mensagem confusa. Como, exatamente, isso é ruim? MM84 estava, desde o começo, andando numa linha tênue com Barbara Minerva, mas ao fim ela acaba se perdendo totalmente.


A Mulher-Leopardo recebe também uma péssima cena de luta contra Diana, semelhante à que conclui o primeiro filme. É um momento escuro, cheio de efeitos especiais e confuso. Felizmente, o filme não termina ali mas com um confronto mais filosófico e espiritual entre a Mulher-Maravilha e Lord, onde Jenkins de uma vez por toda argumenta que a verdade dolorosa é melhor que mentiras visuais.


Mulher-Maravilha 1984 termina um saco de misturas. Há cenas de ação excelentes como uma perseguição na estrada, mas também temos lutas visualmente bagunçadas. Alguns temas são relevantes e significativos, mas outros parecem extremamente confusos quanto à mensagem que querem passar. Alguns personagens recebem um tratamento cuidadoso enquanto outros ficam esquecidos. Ele ainda é superior a muito do que a DC anda lançando, mas falha em alcançar a magia do original.


Nota: 3/5