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Minari - Crítica do Chippu

Simples e profundo, filme de Lee Isaac Chung emociona

Às vezes você só precisa de uma coisa para se conectar com um filme. Talvez seja a dificuldade de um personagem, seu problema de saúde, seu coração quebrado. Algo pelo qual você também está passando e gera um laço emocional que torna aquela obra especial ao ponto de, independente de possíveis falhas, você se apaixonar. Eu não tive com Minari a mesma ligação que meu crítico favorito, Walter Chaw, teve. Eu não sou imigrante como ele, nem sofri com racismo. Mas bastou ver a forma como o diretor-roteirista Lee Isaac Chung trabalha o relacionamento entre avó e neto para ser conquistado.


Arte não pode ser observada de maneira objetiva. Isso não quer dizer que não existam maneiras de avaliar se um filme, por exemplo, tem um roteiro coerente, uma montagem compreensível ou atuações convincentes, mas nada disso torna um longa--metragem excelente por si só. Talvez competente. Como muitas produções de super-heróis que, em si, não tem nenhuma falha gritante e ao mesmo tempo não apresentam uma qualidade única.


Chung faz o oposto disso aqui, e sem comprometer nenhum outro elemento de sua obra. Minari tem um coração enorme. Seu núcleo emocional transborda em cada cena e mostra que seu cineasta tinha, de fato, algo a falar. É a obra pessoal dele, só ele poderia fazer, a história que ele aguardou sua vida toda para contar, com sua a sensibilidade e tato, sua assinatura, sua vida.


Minari, baseado em parte na vida de Chung e de seus pais, conta a história de uma família de imigrantes coreanos tentando construir uma fazenda no Arkansas. Na verdade, quem tem esse objetivo é Jacob Yi (Steven Yeun). Sua esposa, Monica, (Yeri Han) acredita que a vida na cidade grande seria melhor para seus filhos, Anne (Noel Kate Cho) e David (Alan Kim), mas Jacob está determinado a fazer algo com sua vida, a mostrar para as crianças o seu sucesso e não viver para sempre como um dos responsáveis por separar galinhas de galos em uma fábrica. O processo de adaptação só se torna mais difícil com a chegada da Avó Soonja (Youn Yuh-jung, incrível).


Há basicamente dois núcleos principais nessa narrativa. Os esforços de Jacob para conseguir produzir e vender seus vegetais mesmo se isso significar ignorar os desejos de Monica, e o crescimento de David, que não quer se envolver demais com a avó e a cultura coreana. O primeiro lado passa por elementos já vistos em histórias deste tipo, mas com maturidade e cuidado da parte de Chung. Yeun consegue trabalhar em sua atuação tanto a masculinidade orgulhosa do seu personagem quanto a incerteza inerente ao se tomar riscos quando se é responsável por uma família. O roteiro também trabalha bem Monica como alguém com uma voz e amor, genuinamente dando uma chance ao marido mas sempre encarando a realidade como ela é.


Na segunda principal relação está David e sua avó, Minari me pegou. Tendo perdido minha avó recentemente para a covid-19, é justo dizer que ela está em minha mente mais do que o normal. Eu lembro com tristeza dos momentos onde achava que ela estava me envergonhando e valorizo mais as pontes que críamos, inclusive através de filmes. Chung entende tudo. Ele entende que avós afastam netos, especialmente os mais novos, com besteiras como seu cheiro ou uma comida um pouco estranha demais, mas também entende que seu abraço e carinho são diferentes dos pais, repletos de uma segurança e conforto vistos apenas ali.


E enquanto acompanhamos o crescimento de David, Soonja se transforma em alguém que oferece para ele o escape essencial em meio clima pesado nascente entre os pais. O amor entre avó e neto é único e Chung não o desperdiça. Ele poderia ter tomado outras rotas para criar mais facilmente drama ou mover a audiência com emoções baratas, mas a cada avanço da narrativa vemos delicadeza e profundidade no roteiro, mesmo em coisas simples. Quando os pais entram em conflito por conta de um acidente da avó, David joga toda a culpa dela. É claro que uma criança pensa assim e é devastador vê-lo falando isso. Semelhantemente, quando o jovem interpretado com surpreendente emoção por Kim corre (um ato de enorme significado em Minari) para abraçá-la, é impossível não ser tocado.


A relação entre os dois navega do humor às lágrimas, com ambos atores dando seu melhor. Yuh-jung, particularmente, faz o trabalho mais impressionante de Minari, aprofundando uma personagem que poderia rapidamente ser irritante ou clichê com uma atuação multifacetada e impossível de se categorizar facilmente. Ela incomoda o suficiente para prestarmos atenção e então mostra sua vulnerabilidade e carinho com honestidade. Assim que nossa guarda está baixa, ela nos prende.


Na verdade, Minari inteiro nos prende. Você pode imaginar que já sabe o que esperar de filmes sobre imigrantes, e parte disso está aqui. O racismo sutil. A apropriação cultural forçada. Mas é ao encontrar as relações e momentos capazes de tornar a história de cada família um conto único que Chung eleva sua obra a outro nível. Quando tudo contém autenticidade, é quase certeza que algo vai atingir a audiência. Para você pode ser um casamento turbulento, a plantação de uma fazenda ou a barreira da linguagem. Pra mim foi uma avó. Uma que eu ainda queria abraçar.


Nota: 4.5/5