Matrix Resurrections - Crítica do Chippu

Matrix Resurrections - Crítica do Chippu

Usando metalinguagem de maneira brilhante, filme explora o legado do próprio Matrix enquanto denuncia a repetitividade dos blockbusters de Hollywood

Guilherme Jacobs
21 de dezembro de 2021 - 10 min leitura
Notícias

Retornar à Matrix não era uma boa ideia, e Matrix Resurrections sabe disso. O quarto filme da franquia retorna Keanu Reeves e Carrie-Ann Moss aos papéis de Neo e Trinity enquanto mantém completa ciência deste fato. A história estava fechada, a trilogia havia acabado, o fim, enquanto discutível em qualidade, era claro em sua essência. Não há como fazer outro Matrix sem contornar essa verdade. A mera proposta vem por conta de executivos com o desejo de capitalizar em cima de todas as propriedades intelectuais da Warner Bros. E qual foi a resposta de Lana Wachowski? Abraçar essa ideia, questioná-la e usá-la ao seu favor. Já que nos deram mais um, vamos caprichar


Matrix Resurrections é tão metalinguístico quanto se pode ser. Nessa nova realidade virtual, Thomas Anderson é um premiado desenvolvedor de videogames cujo hit de sucesso foram os jogos da trilogia Matrix. Sua história é a mesma da trilogia original. Neo, Trinity e o antigo Morpheus estão lá. Smith, seu parceiro vivido por Jonathan Groff, traz até a ideia de fazer um quarto game para satisfazer os executivos de sua empresa mãe. Thomas aparenta não lembrar de nada do seu tempo como Neo, faz terapia com o Analista (Neil Patrick Harris) para combater seu medo de viver numa simulação e toma pílulas azuis regularmente para manter essa ideia em controle. As coisas mudam, entretanto, quando um novo Morpheus (Yahya Abdul-Mateen II) e Bugs (Jessica Henwick) entram em sua vida.


Por que videogames? Como isso significa? Quem é o novo Morpheus? Dizer mais, eu sinto, tiraria muito da graça de Resurrections. A primeira hora do filme se passa exclusivamente dentro da Matrix e tira grande proveito das expectativas da audiência, constantemente trazendo cenas do original de volta, transformando-as de maneira inteligente e adicionando novos elementos à mistura. Descobrir cada um desses fatores é um dos grandes prazeres da experiência.


Repetir, transformar e adicionar algo novo. Essa receita pode ser aplicada a inúmeros blockbusters modernos. É Jurassic World, os novos Exterminador do Futuro, etc. Audiências, acreditam os produtores, querem mais do mesmo, só com algumas diferenças. Matrix 4 poderia ser assim, e para muitos a metalinguagem aplicada por Wachowski e pelos roteiristas David Mitchell e Aleksandar Hemon não irá além de uma desculpa fácil, uma saída rápida através da qual eles podem limpar sua consciência e se afastar desses outros filmes genéricos. Sim, eles estão repetindo o primeiro Matrix de certa forma, mas eles sabem disso então podem se safar com a ideia, certo?


Sim. Mas vai além disso. Resurrections é sobre essa mesma questão. Se no primeiro Matrix, a forma como as máquinas usam os humanos como baterias servia para mostrar nossa transformação em números dentro da própria máquina capitalista, no novo observamos um tipo de escravidão mais sútil. Ao transformar nostalgia em uma arma contra a raça humana, ele revela a tentativa de Hollywood, das redes sociais, da internet e do virtual de nos controlar pelas emoções, nos dando a sensação de segurança através da familiaridade, e eventualmente aponta a necessidade de quebrar isso. Precisamos do novo.


Vivemos numa cultura de fanservice e repetições. Alguns filmes, como o recente Homem-Aranha: Sem Volta Para Casa, se preocupam em justificar isso num nível emocional e se destacam demais, mas grande parte está satisfeita em regurgitar cenas, falas, itens e histórias familiares. Basta olhar para Ghostbusters. Algumas sequências, como o polêmico Os Últimos Jedi, ousam quebrar esse padrão, alertando sobre a necessidade de destruir o passado, de criar algo, de aprender com erros. A grande sacada de Resurrections é não só inserir isso no texto da obra em si, com os personagens enfrentando esse dilema e escolhendo entre retornar à repetitividade da pílula azul ou se libertar dela pela pílula vermelha. O filme, inclusive, reconhece em uma das cenas dentro da desenvolvedora de Neo/Anderson o próprio legado complicado da franquia, suas várias interpretações (complicadas, cômicas e inteligentes) e o significado por trás de suas mensagens.


Tudo isso é feito de maneira muito óbvia. Não há sutileza, mas sim simplicidade, na comunicação da temática maior do novo Matrix. O quanto isso funcionará com certeza vai variar de pessoa para pessoa, mas Wachowski nunca parece perder o controle ou se manter no raso. A direção é consciente. Isso é reforçado pelos segundos e terceiros atos do roteiro, quando exploramos o mundo fora da simulação e descobrimos as mudanças desde o sacrifício de Neo no fim de Revolutions. É quando Resurrections deixa de criar remixes auto reflexivos do seu passado e de Hollywood para explorar novos conceitos e propostas.


Keanu Reeves é a porta de entrada em todos esses temas cabeçudos. A humanidade e simplicidade de sua atuação, cujas poucas palavras são balanceadas por uma infinita profundidade no olhar e um sorriso capaz de revelar uma multidão de emoções, serve como âncora para nós. Quando as coisas se complicam demais, basta olharmos para Neo e encontramos um porto seguro. Ao reintroduzi-lo à Matrix e ao mundo real, Wachowski nos leva junto. Reeves é o transporte perfeito nessa jornada de volta à fonte. Carrie-Ann Moss, por sua vez, tem um papel menor aqui. Ela, entretanto, se encontra no mesmo nível de seu colega, acompanhando-o no sutil e não falado, na troca de olhares e, eventualmente, ligando seus motores para uma decolagem primorosa. Goff e Harris, ambos escolhas curiosas e inesperadas para seus papéis, surpreendem com ótimas interpretações de ideias familiares de vilões do passado. Mas destaque entre os novatos precisa ir para a dupla Henwick e Abdul-Mateen II: ela elevando seu trabalho de coadjuvante para se mostrar digna de protagonizar o próprio Matrix um dia, e ele abraçando a diversão e confiança de se tornar uma estrela do cinema moderno, totalmente confortável no papel mais difícil de todo o elenco e comentando em tempo real no fato de estar substituindo, reproduzindo e alterando a lenda criada por Laurence Fishburne há mais de 20 anos.


Se, porém, as tentativas de Resurrections de reproduzir o primeiro Matrix num nível textual funcionam em diversas camadas, o novo filme mostra uma clara falha de Wachowski em mantê-lo tão visualmente interessante quanto seus antecessores - pelo menos dentro da Matrix. Fora, há personagens cuja mera existência adiciona um refresco tanto visual quanto conceitual, locais com vistas e construções inéditas, e mais. Dentro do mundo simulado, porém, Resurrections adota uma linguagem menos ousada. Essa abordagem não traz muitas complicações durante cenas de diálogo ou exploração, mas é prejudicial para a ação. Essa característica, em particular, varia entre o medíocre e o mediano no novo filme, jamais nos conquistando e capturando com suas câmeras lentas e artes marciais. As cenas de luta ainda são bem iluminadas, seus ambientes claros e com uma linda correção de cor saturada Há até uma piada sobre a tentativa de encontrar um novo bullet time, e para seu crédito, Wachowski realmente tenta. É difícil, todavia, revolucionar o cinema duas vezes.


E, bom, Matrix Resurrections não precisa fazer isso e nem tem pretensões para tal. O objetivo é olhar para trás e enxergar, como Neo vendo o código depois de ressuscitar no primeiro filme, a verdade. E, como seu protagonista faz ali, ao entender as regras do jogo, o novo Matrix se torna capaz de dobrá-las, quebrá-las e alterá-las. Matrix (1999) podia desviar de balas. Matrix Resurrections não precisa.


Nota: 4.5/5

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