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Liga da Justiça de Zack Snyder - Crítica do Chippu

O esperado Snyder Cut finalmente está aqui. Valeu a espera?

É possível a parte mais irônica do Liga da Justiça de Zack Snyder, o famoso Snyder Cut, é que para um filme recheado de tanta história, com personagens tão importantes e uma saga tão longa até o lançamento, seu conteúdo é mais normal do que se imagina. Por trás das câmeras lentas e composições poéticas colocadas pelo diretor em cada momento, está um filme de herói seguindo bastante as regras do gênero. Seu maior problema é, curiosamente, o que o torna tão épico em escala.


Você conhece a história. Snyder estava em briga com a Warner Bros. quando sofreu uma tragédia na família. Após a morte da filha, o diretor decidiu que não conseguia encarar as diferenças criativas com o estúdio e enfrentar o luto, deixando para trás o projeto, eventualmente concluído por Joss Whedon com bem mais humor (e minutos) em relação ao plano inicial. Agora, anos e milhões de dólares depois, o Snyder Cut está aqui com todas as suas quatro horas.


Sim, quatro horas de Liga da Justiça no universo com a visão de Zack Snyder. Talvez essa seja a melhor qualidade deste filme. Em um mundo onde produções de heróis parecem muitas vezes seguir padrões como um fast food, aqui está alguém com uma ideia. É justamente a direção criativa que o torna tão polêmico. Ele é o mesmo diretor que abandonou a ideia de super-heróis como bastiões da moralidade ao colocar Perry White (Laurence Fishburne) dizendo "não é mais 1938" - o ano de criação de Kal-El - para Clark Kent (Henry Cavill) em Batman vs. Superman: A Origem da Justiça. Não, ele está mais interessado em outros conceitos além do heroísmo.


Curiosamente, os anos parecem ter amadurecido essa visão. O novo Liga da Justiça é, acima de tudo, um filme sobre heróis como Snyder os vê - figuras modernas que devem nos lembrar dos mitos e figuras religiosas. Todos os Snydismos imagináveis estão presentes. As poses de Cristo no Superman, as composições feitas para parecerem obras artísticas clássicas, as pausas dignas de pôsteres. Aqui, ele parece mais interessado em observar esses personagens como símbolos e não como homens corrompidos. Por trás de todo esse estilo, entretanto, não há muito que se destaque.


As primeiras duas horas do Snyder Cut, suficientes para um filme só, parecem uma coleção de curtas sobre os heróis da DC, estufando seu interior com história de origem após história de origem, preenchendo cada segundo com câmera lenta, exposição e elementos usados para tentar elevar o enredo ao senso de grandiosidade tanto vista pelos fãs no diretor. Quando Aquaman (Jason Momoa) entra no mar, o povo o qual ele ajuda canta como se estivesse vendo seu deus ascender (ou, nesse caso, submergir), sem que ele tenha em algum momento demonstrado merecer isso (o filme nos diz, mas não mostra). Quando o Ciborgue (Ray Fisher) descobre seus poderes, ele é descrito como o senhor sobre toda a tecnologia, uma habilidade usada ao longo do filme é mais para pilotar veículos do que qualquer outra coisa.


Mas a mesma câmera lenta aplicada por Snyder, por exemplo, no momento mais importante do seu universo - a morte do Superman em BvS, reproduzida na abertura do novo corte - também está presente na queda de uma semente de gergelim em uma cena com o Flash (Ezra Miller). O novo tema da Mulher-Maravilha (Gal Gadot) é repetido em cada ação da personagem, ao ponto de se tornar engraçado. Beba cada vez que ele toca e imagino que sua manhã seguinte será acompanhada por uma bela dor de cabeça.


Debaixo de toda essa maquiagem e pintura, Snyder conta a mesma história vista em 2017. O Lobo da Estepe (Ciarán Hinds) quer juntar três Caixas Mães para destruir a Terra e abrir o caminho para a chegada do grande vilão Darkseid (Ray Porter). Para impedi-lo, Batman (Ben Affleck) deve juntar os heróis já mencionados numa aliança para salva a existência. Se isso tudo parece semelhante a diversos outros títulos do gênero - artefatos poderosos, personagens que inicialmente não querem cooperar, um inimigo cuja existência aponta para uma ameaça muito maior - não se surpreenda. É mesmo. Não há um senso de urgência aqui, não há um momento no qual, apesar da iminente destruição da humanidade, os riscos parecem palpáveis.


Talvez essa seja a maior decepção. Em seu ótimo O Homem de Aço, Snyder deu ao Superman um palco grandioso. A mesma impressão está presente no desastre chamado Batman vs Superman. Apesar dos Marthas e Batman assassino, o sentimento de importância estava ali. Nesse Liga da Justiça? Os picos não são tão altos.


O grande tema é a necessidade de união. Ou melhor, a inevitabilidade dela. A escuridão vai se unir e a única maneira de impedi-la é fazendo com que a luz faça o mesmo. Os heróis, entretanto, não estão disposto a fazer isso depois de se ferirem tanto por mãos de pessoas amadas. Todos os personagens da Liga são marcados pelas perdas experimentadas, sejam elas seus pais, seu planeta, seu povo ou sua vida, eles estão marcados pelo luto e preferem o isolamento à esperança. A diferença disso está em Barry Allen, a quem Miller - um dos melhores pontos do filme - adiciona uma leveza e humor muito bem-vindos num filme cuja seriedade beira a paródia. Talvez seja porque ele ainda tem o pai, mas aqui está alguém que ainda acredita em algo.


A jornada mais interessante é a de Ciborgue. Victor Stone claramente era o coração do filme de Snyder e a pessoa escolhida para encarnar seus temas. O arco com o pai, Silas (Joe Morton), e a nova identidade como meio-homem, meio-máquina, é o mais trabalhado de todo o roteiro, mesmo às vezes com metáforas óbvias ao ponto de parecerem brincadeira, como uma nave que "quer voar mas não consegue." Ela só pode ser consertada por Ciborgue, e quando ele o faz, há a sensação de que o herói finalmente aceitou quem é.


É esse tipo de coisa que torna Liga da Justiça de Zack Snyder tão rasa. Por trás dos enquadramentos - quase em 4:3 - evocando obras de arte clássica, das câmeras lentas que o diretor potencializa ao diminuir ainda mais a velocidade e dos termos pesados como Grande Escuridão e Unidade, está uma história repleta com os maiores clichês do gênero. Problemas com pais, ser diferente num mundo normal, aceitar seu chamado. Você já viu isso tudo. Quando você tenta deixar tudo épico, de uma simples exposição ao fim do mundo, o efeito é reverso. Devia empolgar, mas vira anestésico.


No fim, o Snyder Cut é um filme bem mais competente do que o lanaçado pela Warner em 2017, mas é fácil entender porque o estúdio não queria quatro horas de origens, exposição e baixa velocidade. Ele também é um passo de redenção para o diretor. Snyder finalmente concluiu seu magnum opus e mostrou ainda acreditar no heroísmo depois de abandoná-lo em Batman vs Superman. Mas até você chegar na última hora dessa longa jornada - quando a longa plantação acaba e finalmente entramos na colheita, quando a equipe se une e o roteiro parece sair da primeira marcha pela primeira vez - é surpreendente ver o quão quadrada ela é. E eu não quero dizer apenas na resolução.


As campanhas pelo lançamento do seu infame corte deixavam implícitas a presença algo importante nessa versão da história. Um diferencial. Uma visão artística merecedora de mais destaque. Apesar de momentos de brilho - o retorno triunfante do Superman vai deixar qualquer pessoa (particularmente quem amou Homem de Aço) com um sorriso no rosto - este Zack Snyder não merece as divisões causadas na cultura. Seus vícios e qualidades estão todos aqui. Liga da Justiça é, de fato, autoral. Para o bem e para o mal. Ele tem problemas como a duração exagerada, um epílogo mais parecido com fanservice (e talvez seja mesmo) do que uma história e pontos narrativos já batidos. Mas este filme revela, acima de tudo, é: talvez seu autor não tenha tanto a dizer.


Nota: 2.5/5