Garra de Ferro: Zac Efron enfim alcança seu potencial como ator em drama devastador

Garra de Ferro: Zac Efron enfim alcança seu potencial como ator em drama devastador

Excelente drama de Sean Durkin conta história real da família Von Erich

Guilherme Jacobs
6 de fevereiro de 2024 - 8 min leitura
Notícias

É tentador traçar paralelos entre as histórias de filmes e as vidas dos atores, diretores e roteiristas responsáveis por realizá-los. Esse tipo de ligação muitas vezes só funciona como uma engenharia reversa feita para dar novas teses à obra, e não como uma leitura real do que está em tela. Talvez eu seja culpado disso aqui, mas não consigo parar de enxergar como a jornada de Kevin Von Erich em Garra de Ferro espelha a de Zac Efron.

Para qualquer pessoa da minha idade (28, apesar do que dizem as más línguas), Efron uma vez foi o maior astro do mundo. Quer você ame High School Musical ou, como eu, tenha absorvido a trilogia musical do Disney Channel por osmose devido à presença constante dela em sua casa, o intérprete Troy Bolton foi posicionado como uma estrela em ascensão cujo futuro em Hollywood parecia garantido. Na prática, porém, as últimas duas décadas não foram as mais fáceis de navegar para o ex-Wildcat, e ideia de que ele seria o próximo DiCaprio, algo que o atual DiCaprio parecia acreditar colocando-o debaixo de seu braço, se foi.

Entre a dificuldade de deixar a Disney para trás e o gosto questionável na hora de escolher novos projetos, Efron precisou virar um ícone fitness, se afastar de quase tudo relacionado a High School Musical e frustrar todo shipper do casal Zanessa para lidar com as questões de maturidade, imagem e estrelato jogadas em seu colo. Com Garra de Ferro, ele finalmente nocauteou seus adversários. Aqui, ele encontra alguém, outro artista do entretenimento que usa sua fisicalidade para conquistar audiências, para compartilhar conosco a experiência de crescer na sombra das expectativas dos outros.

Dirigido e escrito por Sean Durkin com base numa devastadora história real, Garra de Ferro acompanha a ascensão e queda da segunda geração da família Von Erich no mundo da luta-livre. Depois do sucesso limitado do patriarca Fritz (Holt McCallany), foi a vez dos filhos Kevin, David (Harris Dickinson), Kerry (Jeremy Allen White) e eventualmente Michael (Stanley Simons) subirem no ringue onde batalharão pelo cinturão de campeão e, mais importante, pela aprovação de seu pai.

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Na vida real, havia mais um irmão, Chris. Durkin fez a ousada e polêmica decisão de remover o Von Erich caçula do filme, porque não acreditava que o projeto sairia do papel com mais um desastre no roteiro. Isso é mais do que o suficiente para entendermos o grau de drama em cena aqui. Garra de Ferro acompanha, através de mortes e derrotas, o desmontar de um lar mantido inicialmente pelo desejo competitivo de homens decididos a serem os mais fortes, mas que no fundo só gostavam de brincar com seus irmãos.

Na luta-livre, Durkin compõe a ambientação perfeita para encenar essa tragédia. A começar pelo seu título, uma referência ao agarrão aplicado por Fritz aos adversários nos seus tempos de atleta, Garra de Ferro vê na performance e fisiculturismo dessa modalidade, algo existindo nos limites entre entretenimento e esporte, o caminho para tratar de masculinidade, competitividade e identidade.

Na verdade, o termo "luta-livre" passa até a ideia errada. Os Von Erichs vivem de wrestling, o espetáculo roteirizado popularizado pelo WWE e nomes como John Cena e Hulk Hogan. Não adianta só ser o mais forte, ter o melhor corpo e os golpes mais certeiros para vencer nisso. É preciso entreter o público, construir um personagem e habitar uma narrativa para competir, ganhar e eventualmente ter a chance de tomar o título. "Ser promovido," como Kevin diz. E por mais que o resultado das lutas seja predefinido, as feridas são totalmente reais.

Esse contraste — o cenário belo e o horror usado para pintá-lo — é transmitido por Durkin na sua representação dos Estados Unidos do fim dos anos 1970, onde símbolos do sonho americano no Texas, como roupas e ranchos, são apresentados pelo diretor com um ar de uma fábula sombria. O ideal do sol dourado banhando tardes de churrascos e cervejas convive com uma escuridão estranha pairando no ar. Nesse paraíso falso, corpos esculpidos a partir de suor estão constantemente sendo jogados no chão.

Ainda assim, Kevin e seus irmãos escondem a dor. Quando a primeira catástrofe bate na porta dos Von Erichs, Fritz, interpretado por McCallany como um poder absoluto capaz de dominar todos à sua volta pelo medo, comanda seus filhos para segurarem o choro, mais uma vez manifestando as ideias de Garra de Ferro sobre o que está na superfície e o que está escondido. Graças ao regime imposto por Fritz, chegar ao limite do esforço é virar uma decepção, e os Von Erichs se tornaram experts nesse jogo de fumaça, mas eventualmente, o exterior começa a rachar.

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Quando isso acontece, Garra de Ferro brilha no estudo de seu protagonista e fica aquém do necessário na hora de trabalhar a mãe (Maura Tierney, excelente quando recebe chances) e os irmãos coadjuvantes, David, Kerry e Michael. Bem interpretados por Dickinson, Allen White e Simons, os três jamais recebem o mesmo aprofundamento presente em Kevin, que auxiliado pelo amor por Pam (Lily James), começa a entender sua verdadeira vontade e a processar a posição de seu pai de maneira diferente. Quando ele é colocado de lado por Fritz em favor dos mais novos, Kevin inicia o doloroso e necessário processo de escapar das definições aplicadas por este juiz imperdoável.

E aqui, voltamos para Efron, que nunca esteve mais musculoso e mais frágil, e nem melhor. De temperamento manso e olhar profundo, Kevin Von Erich se torna um observador desesperado por não conseguir fugir de uma maldição hereditária, e Garra de Ferro comunica sem reservas a tristeza palpável proveniente de uma atmosfera de luto constante. Efron é o principal viés para a transmissão desse sofrimento, e passa por uma espécie de amadurecimento quando seu riso mais jovial e caráter infantilizado são sistematicamente destruídos pela dureza da realidade.

É uma queda dura, mas o ator a executa sem jamais deixar a feição ou trejeitos do personagem o afastarem de uma humanidade genuína. Uma vez acorrentado ao status de "ídolo teen", Efron se mostra preparado para navegar pelas águas de um homem que precisa sair da sombra de uma família para criar outra. Em Garra de Ferro, essa troca, do artificial pelo verdadeiro, do tóxico pelo saudável, está presente na fotografia e no roteiro, mas em nenhum lugar ela é tão visível quanto nas lágrimas de Zac Efron como Kevin Von Erich.

Garra de Ferro será lançado nos cinemas brasileiros pela California Filmes em 22 de fevereiro.

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