Nacionalismo e minorias: Por que Fúria Primitiva quase não aconteceu?

Nacionalismo e minorias: Por que Fúria Primitiva quase não aconteceu?

Negócios e política quase colocaram um fim no primeiro filme de Dev Patel como diretor

Alexandre Almeida
24 de maio de 2024 - 5 min leitura
Notícias

Se o ótimo Fúria Primitiva conseguiu chegar aos cinemas, devemos agradecer a duas pessoas: Dev Patel e Jordan Peele. O primeiro, diretor, astro e um dos roteiristas do filme, por não desistir da ideia, mesmo depois de a Netflix enterrar o projeto. O segundo, por receber a ideia e abraçar o projeto com sua produtora Monkey Paw. Peele já disse em entrevista que entendeu a “jornada árdua e longa” que Patel estava percorrendo, mas que o ator “não tinha percebido o quão inacreditavelmente incrível era” a ideia.

O cancelamento do projeto pelo streaming nunca foi justificado oficialmente, mas os rumores são de que a empresa não quis financiar o projeto devido suas críticas abertas ao regime de governo nacionalista e conservador do Partido do Povo Indiano (ou Partido Bharatiya Janata). O Prime Video, por exemplo, já havia tido problemas com a série Tandav, acusada por conservadores de ferir sentimentos do hinduísmo ao utilizar imagens de deuses da religião em sua narrativa. Cenas foram censuradas, redes sociais inundadas de comentários negativos e atores tiveram que pedir proteção judicial contra ameaças sofridas.

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Fúria Primitva vai além e utiliza a figura fictícia de Baba Shakti (Makrand Dashpande), um guru que apoia o candidato à presidência, como um reflexo atual da política indiana. Ele faz discursos abertos contra aqueles que maculam a nação e os costumes do povo hindu: os cristãos e muçulmanos. Embora nunca citado nominalmente, o discurso está alinhado ao de Narendra Modi, primeiro-ministro indiano há 10 anos e defensor do nacionalismo Hindu. Em 2019, Narendra foi apoiador ferrenho da Lei de Cidadania, que, segundo grupos de direitos humanos e a oposição, marginalizou mais de 200 milhões de muçulmanos que vivem na Índia. Confrontos e protestos ocorreram após demolições indevidas de mesquitas. Além disso, o preconceito e a segregação violenta contra os muçulmanos disparou. O filme de Patel mostra situações semelhantes, com as autoridades destruindo a casa da mãe de Kid e do vilarejo onde eles viviam para construções de Shakti. Além disso, imagens de violência contra muçulmanos são mostradas em flashes rápidos durante o discurso do guru.

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Um dos filmes mais falados nos últimos anos, RRR, de S.S. Rajamouli sofreu duras críticas ao acompanhar uma possível agenda nacionalista quando excluiu a importância dos líderes praticantes do Islã da “revolução” mostrada no filme, inclusive no ato musical final. Além disso, Rajamouli também foi acusado de estereotipar povos tidos como de castas mais baixas, como os Gondi.

Fúria Primitiva ainda mexe com o hinduismo, colocando o protagonista em um templo de hijras, pessoas trangêneros, perseguidas e violentadas no país. As hijras são historicamente abandonadas por suas famílias e excluídas pelo conservadorismo, já que não podem ser modificadas e acabam buscando refúgio em comunidades marginalizadas. Assim como vemos no filme, elas podem se organizar em hierarquias matriarcais, com grupos de ”irmãs” que atuam juntas. Patel explora essa noção no templo em que as hijras idolatram uma imagem metade Parvati e metade Shiva, uma deusa da devoção e o outro o deus da destruição, o feminino e o masculino juntos. A figura de Alpha (Vipin Sharma) a “matriarca” do grupo vai servir de mestre para Kid aprender a lutar por um propósito e as próprias hijras têm papel fundamental no conflito final.

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Ou seja, Dev Patel coloca duas minorias juntas para treinar e encontrar um porquê de lutar contra o poderoso governo que os persegue. A mensagem fica clara quando Shakti diz para o comandante da polícia (Sikandar Ker) que Kid é um ninguém até virar um alguém. Para os opressores, ele não pode virar um símbolo. É uma metáfora clássica, utilizada em diversas obras e jornadas de herói, mas que pisa em calos específicos tanto de grandes financiadores da indústria do entretenimento, como da massa que consome seu conteúdo. Para se ter um exemplo, até 2020, período pré-pandemia, a indústria de cinema indiano vendia mais de 2 bilhões de ingressos por ano.

É complicado culpar um serviço que trabalha com metas de crescimento e audiência por não aprovar uma história assim. Ao mesmo tempo, e muito mais importante, é louvável que Patel, um diretor iniciante, tenha se mantido fiel ao material e tenha encontrado com Jordan Peele uma segurança para colocar sua obra na tela. Principalmente esses detalhes que tornam Fúria Primitva algo diferente de filmes do mesmo gênero.



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