Fúria Primitiva vai além de ser mais uma cópia de John Wick

Fúria Primitiva vai além de ser mais uma cópia de John Wick

Estreia na direção de Dev Patel ecoa as obras que o ator já participou e entrega um excelente filme de ação

Alexandre Almeida
23 de maio de 2024 - 5 min leitura
Notícias

O mundo mudou, já dizia Galadriel. Se no início dos anos 2000 as grandes referências do cinema de ação foram Matrix e em seguida Jason Bourne, desde 2014, a maior delas é John Wick. E não é para pouco, os quatro filmes com Keanu Reeves geraram um grande impacto na cultura pop e surfar nessa onda é mais do que esperado.

Quando Fúria Primitiva foi anunciado, as comparações logo se deram. “Um John Wick indiano”, muitos disseram sobre a estreia do ator Dev Patel na direção. E de fato, o marketing do filme se escora em Wick para promovê-lo. De novo, nada fora do esperado. Entretanto, a história de vingança do protagonista, interpretado por Patel, e simplesmente chamado de “Kid” ou garoto, em tradução literal, vai além do esperado em um filme desse gênero. O diretor e astro mistura diversos conceitos da cultura e da política indiana dentro da trama, afastando-a do simples clichê do homem vingativo que vai enfrentar o mundo todo para cumprir sua missão.

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Visualmente, Fúria Primitiva adiciona novos elementos aos já conhecidos momentos de luta corporal utilizando objetos ou armas como defesa. Patel brinca com o uso de celulares para filmar movimentos mais rápidos, coloca a câmera no ponto de vista do próprio protagonista durante uma perseguição na escada e encontra na fotografia de Sharone Meir o parceiro ideal para utilizar as luzes da boate e da cidade como tinta para pintar os quadros do filme. A cena de perseguição da polícia, que acaba dentro de um bordel é fantástica, assim como toda a grande sequência de luta final.

Essa maturidade na direção do estreante Dev Patel ecoa diversos trabalhos anteriores do ator. Do trabalho frenético de Danny Boyle e a câmera à laCidade de Deus de Quem Quer Ser um Milionário - não tem como não lembrar na sequência do roubo da carteira -, até a fantasia lisérgica de O Cavaleiro Verde, quando Kid experimenta uma erva e relembra o passado, o drama social de Lion: Uma Jornada para Casa e as questões sociais injetadas nos filmes de gênero de Neill Blomkamp, com quem trabalhou em Chappie. Patel junta toda essa experiência de mais de 14 anos como ator, quando despontou em Skins, a seu favor e cria uma jornada rica, fugindo do simplismo muitas vezes associado ao cinema de ação.

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Essa riqueza transborda também para os temas. A história de Kid se costura com a da própria Índia e ascensão de partidos ultranacionalistas, que reivindicam um país apenas para os hindus, perseguindo muçulmanos e cristãos. A figura de Baba Shakti (Makaran Deshpande), o guru midiático, é um retrato de uma das grandes crises sociais que o país vem passando e que já vitimou centenas de pessoas. Além disso, Patel ainda mistura conceitos religiosos e folclóricos como a história de Hanuman, uma divindade do hinduismo, e o elemento mais interessante de todos: o templo das Hijras, pessoas transgênero, conhecidas como o terceiro gênero no país e perseguidas pelos conservadores. É lá que Kid vai fazer seu treinamento e aprender sobre “lutar com propósito”. É um trope comum em filmes de superação, mas todo esse contexto em que Patel inclui o protagonista, junto com a trilha sonora excelente de Jed Kurzel, dão um charme a mais.

Produzido por Jordan Peele, Fúria Primitiva é um excelente exemplo em como se aproveitar do momento do gênero, mas passar na frente dos demais concorrentes pela qualidade técnica e narrativa de sua história. Dev Patel merece todos os aplausos possíveis por não ter desistido da sua obra quando a Netflix não quis dar continuidade nela. E merece outros tantos por conseguir não só nos engajar com seu olhar marcante de sempre, mas também por nos fazer acreditar que ele pode sim derrotar, seja com uma faca, uma panela ou fogos de artifícios caseiros, um sistema opressor.


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