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Falcão e o Soldado Invernal - Episódio 6: Crítica do Chippu

Um novo nome muda completamente as facetas do universo Marvel.

O texto a seguir contém spoilers de "Um Mundo, Um Povo", o último episódio de Falcão e o Soldado Invernal


Ou, devo dizer, de Capitão América e o Soldado Invernal


Quando "Um Mundo, Um Povo" termina e o título da série, Falcão e o Soldado Invernal aparece modificado para Capitão América e o Soldado Invernal, eu admito foi difícil conseguir segurar o sorriso. Deixando de lado os problemas da série, esquecendo que ainda se trata de uma produção do Marvel Studios. No fim do dia, ela não tratará de temas como racismo da mesma maneira que, digamos, um filme do Spike Lee, ainda estamos concluindo uma das coisas mais vistas no mundo com o símbolo dos Estados Unidos nas mãos de um homem negro. E um homem negro que escolheu estar lá.


Este finale foi competente, fechando de maneira agradável diversos arcos e apontando para o futuro do MCU, mas ainda são 50 minutos mais voltados para ação e fanservice. O peso dramático foi concluído no excelente "Verdade", quinto episódio. Isso ainda é uma série da Marvel, então precisamos de uma grande batalha para concluir a história, e ela está aqui. Ela só não é muito empolgante.


Mas vamos falar do melhor primeiro. Em apenas alguns minutos, Sam Wilson (Anthony Mackie) chega em Nova York, onde Bucky (Sebastian Stan) e Sharon (Emily VanCamp) já estão presentes para tentar impedir o ataque dos Apátridas, liderados por Karli Morgenthau (Erin Kellyman). E de cara, o Falcão está com seu novo uniforme seu novo nome - até a legenda da série o descreve como Capitão América. A transformação dele não é uma surpresa, e tematicamente já havia acontecido no último capítulo, mas agora ela está visível para todos. Em um nível puramente visual, ver Sam combinando o uso do escudo com suas asas é interessante e abre várias possibilidades, mesmo que a ação no episódio não chegue aos pés dos filmes estrelados por Steve Rogers.


O mais importante, entretanto, é o que isso significa. E em mais uma cena entre Sam e Isaiah Bradley (Carl Lumbly), depois do fim da luta, os temas são trazidos à tona novamente. Bradley se mantém cínico em relação aos Estados Unidos, como você poderia culpá-lo? Mas o veterano e cansado soldado não consegue segurar a emoção ao ver Wilson plantando os pés na sua convicção. Foi seu povo, os negros, que construíram este país, o seu sangue está nas fundações e ruas de suas cidades. É seu direito lutar por ele, tentar melhorá-lo e até mesmo representá-lo. É por isso que Sam Wilson é um homem negro vestindo vermelho, branco e azul.


Novamente, é importante entender que o Sam deste episódio escolheu assumir o manto. Steve o entregou o escudo, claro, mas ele desistiu do símbolo na estreia. Então, mesmo com Isaiah e John Walker (Wyatt Russell) apontando para o contrário, Wilson tomou a decisão de colocar a estrela em seu peito, o que torna o ato muito mais poderoso e significativo do que se ele tivesse simplesmente adotado o nome Capitão América quando recebeu o presente do antigo dono deste título.


E então o segundo Capitão América negro leva o primeiro para o museu do herói. La, há agora uma seção dedicada aos feitos de Bradley. Tem até uma estátua. Isaiah finalmente solta suas emoções ao abraçar Sam, gerando o momento mais emocionante de toda a série, e admito que um nó se formou na minha garganta na hora.


O outro grande momento de Sam vem logo após derrotar os Apátridas - uma luta que custa a vida de várias pessoas, incluindo Betroc (Georges St. Pierre) e da própria Karli (mais sobre ela num minuto...) e revela para a audiência apenas que Sharon realmente é a Mercadora do Poder - quando ele pousa diante de câmeras e senadores na rua para confrontar o Conselho de Repatriação Global sobre seus métodos e as razões por trás dos seguidores da causa de Karli. Por um lado, a cena é estranha, fabricando uma situação para dar ao novo Capitão América a chance de discursar na frente do mundo e dos poderosos (por que os políticos ainda estavam ali esperando?) para então ganhar o respeito da população.


Por outro, Wilson (e Mackie) sempre estiveram em seu melhor quando tinham a chance de falar. Seja com Karli no episódio 4, ou com Bucky no 5, a especialidade de Sam, ainda acima de voar, é discursar e debater, esse era seu chamado antes de Steve Rogers bater na sua porta em Capitão América: Soldado Invernal. Por mais, então, que o contexto do momento seja forçado, o conteúdo do mesmo não decepciona. O antigo Falcão não cede de sua posição, não aceita o movimento violento dos Apátridas sem deixar os políticos confortáveis com suas leis. Ele admite já sentir os olhares cheios de julgamentos por ser negro, mas usa este fato como o argumento a seu favor e, finalmente, consegue o que Morgenthau tentou obter através de socos e explosões. Há até um olhar de reconhecimento de Walker - o personagem tenta se redimir de alguns erros durante a luta, se aliando aos heróis e escolhendo salvar ao invés de matar - percebendo o sucesso de Sam exatamente onde falhou.


Tirando esses momentos, o final de Falcão e o Soldado Invernal é... okay. Bucky, novamente, não recebe muito destaque. Seu arco termina onde começou, na porta do vizinho cujo filho ele matou, mas a série corta para fora assim que o personagem começa a admitir seu passado e encarar seus demônios. É decepcionante, ainda mais depois de ver a capacidade de atuação dramática de Sebastian Stan no flashback para o Wakanda. Claro que Sam é o foco, isso está óbvio desde o primeiro minuto, mas Barnes merecia mais desenvolvimento.


Quem também termina decepcionando é Karli. Seja porque os rumores de que a história dos Apátridas foi cortada por envolver um vírus, custando cenas entre a personagem e outras pessoas dos acampamentos de deslocados, ou por ser a quinta figura mais importante da narrativa e, ao mesmo tempo, receber o posto de grande antagonista, algo que jamais foi capaz de cumprir, Morgenthau termina como esquecível. Em entrevistas, Kellyman e o criador da série, Malcolm Spellman, falavam sobre criar "uma vilã com um ponto de vista" semelhante ao Killmonger de Pantera Negra. O resultado, entretanto, nem chega perto.


Karli e os Apátridas nunca convencem. Falcão e o Soldado Invernal devia ter aprendido com Zemo (Daniel Brühl, infelizmente escanteado neste capítulo) e prestado mais atenção nas crianças e pobres, mostrado mais do seu dia a dia. Morgenthau constantemente nos diz que há milhares de pessoas deslocadas, sem teto e famintas, mas a julgar pelo que vimos na série, a situação não parece tão escassa assim. É uma falha dos diretores e roteiristas, assim como os planos do grupo. O que exatamente eles queriam fazer nesse episódio? Sequestrar os políticos e depois tudo acabaria? Forçá-los a desistir do voto? O que Karli achava que ia acontecer quando os senadores fossem soltos, ou mortos? Os governos iam apenas abandonar a ideia?


Nem a grande batalha contra os Apátridas consegue capturar muito as atenções. Tirando nas cenas de voo de Sam e no grande confronto contra Walker no começo de "Verdade", a ação de Falcão e o Soldado Invernal nunca foi das melhores. Cenas de luta são cheias de cortes, ângulos baixos e nunca conseguem capturar o peso da força dos super soldados com a mesma clareza de, digamos, os filmes Capitão América (especialmente o segundo e terceiro). Efeitos sonoros tentam compensar as faltas, mas a direção de Kari Skogland é incapaz de transmitir os feitos épicos destes deuses modernos como os Irmãos Russo faziam.


"Um Mundo, Um Povo" ainda é uma conclusão satisfatória, mas como em tantas séries, o melhor episódio foi o antepenúltimo. De qualquer forma, ainda vemos Sharon receber seu perdão e trazer o Mercador do Poder para os EUA, John Walker recebe seu uniforme preto e adota o nome de Agente Americano, completamente besta e sem noção, caindo na lábia da Condessa Valentina Allegra de Fontaine (Julia Louis-Dreyfus) e há um novo Capitão América voando pelos céus. Torçamos para que o futuro do universo Marvel não esqueça o significado disso.