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Falcão e o Soldado Invernal - Episódio 1: Crítica do Chippu

Com mais drama do que o esperado, série da Marvel surpreende em aprofundar os personagens

ATENÇÃO: Esse post contém spoilers leves do primeiro episódio de Falcão e o Soldado Invernal. Nenhuma surpresa é revelada, mas pontos da história são discutidos.


Se você assistir aos trailers divulgados pela Marvel de Falcão e o Soldado Invernal, sua nova série do Disney+ após WandaVision, talvez tenha a impressão de ser algo repleto de comédia, que não para de fazer piadas e foca apenas na ação. É verdade. Há bastante ação e comédia. Afinal, o seriado segue a fórmula de sucesso vista nos filmes do estúdio, mas ao assistir o primeiro episódio, a maior surpresa é quanto drama há.


Quando falo drama, não quero dizer que devemos esperar dessa série algo no estilo dos filmes de Christopher Nolan um roteiro melodramático. Mas há uma seriedade surpreendente e bem-vinda permeando os 47 minutos da estreia de Falcão e o Soldado Invernal, e basta pensar no contexto no qual os personagens que dão nome a série - interpretados por Anthony Mackie e Sebastian Stan, respectivamente - se encontram para essa decisão não só se mostrar como inesperada, mas também adequada.


O Falcão, ou Sam Wilson, chega à série após ter recebido a maior responsabilidade do Universo Marvel após Vingadores: Ultimato. Ele é o responsável por continuar o legado do Capitão América (Chris Evans), mas não se sente capaz de preencher o vácuo deixado por Steve Rogers, então decide colocar o escudo num museu dedicado ao herói e, tirando suas missões ocasionais com a força aérea, prefere focar em ajudar a família. Sua irmã e sobrinhos estão passando por dificuldades financeiras e prestes a perder a casa e barco que herdaram dos pais.


Já James "Bucky" Barnes, o Soldado Invernal, está experimentando a vida de civil pela primeira vez em 10 anos. Após lutar na Segunda Guerra, ser hipnotizado pela Hydra e combater Thanos com os Vingadores, ele pode finalmente redescobrir a sensação de ir comer num restaurante, conhecer seus vizinhos e, quem sabe, até sair num encontro com uma mulher bonita. Nem tudo são rosas, entretanto. Bucky ainda precisa encarar pesados que o relembram do seu tempo como uma máquina de matar dos vilões e atende regularmente à terapia para veteranos com o objetivo de tratar seus distúrbios.


Ambos lados da equação são tratados com mais carinho e cuidado do que normalmente vemos em filmes da Marvel. Lá, o drama dos personagens normalmente é feito (com sucesso) de maneira econômica, com poucas falas explicando bastante da situação emocional dos heróis antes de voltarmos ao enredo, vilões e batalhas. Falcão e o Soldado Invernal terá, ao todo, seis horas de conteúdo, e o roteiro de Malcolm Spellman toma proveito disso. Enquanto as pistas da grande trama são plantadas, ele deixa os protagonistas respirarem e a audiência entender onde está pisando.


No caso do Falcão, finalmente conhecemos mais de suas origens. Ele é natural da Louisiana, onde sua irmã, Sarah (Adepero Oduye) trabalha duro para manter a casa e filhos após a morte do marido. Odouye é uma presença incrível na tela e eleva a atuação de Mackie, normalmente especialista em comédia, a outro patamar. É também uma oportunidade verdadeira de realmente vermos como é a vida de civis no MCU, pessoas que, como eu e você, lidam com banco, dívidas e noites curtas de sono. É também fascinante ver a vida dos habitantes desse estado tão cheio de cultura e história na tela. Essa parte ainda pode ser mais explorada. Fica a torcida.


Por conta da química entre os irmãos e pelo estilo cômico de Mackie, essa é a parte do episódio onde encontramos mais humor e leveza. Já quando as coisas vão para Bucky, o clima é mais pesado, afinal poucos personagens deste universo tem tanta bagagem quanto ele. Uma das melhores surpresas da série até aqui vem através de uma conexão com um dos seus pesadelos e um conhecido do herói, mas é o tipo de coisa melhor descoberta quando você assistir. Por hora, basta dizer que é um toque de consequências raramente visto nas produções do Marvel Studios. Há um peso nas ações do Soldado Invernal, pessoas sofreram por conta do seu braço metálico. Agora, ele está tentando reparar e lidar com isso tudo.


E quanto ao que você espera ver da Marvel, comédia e ação, não se preocupe. Está tudo aqui. Falcão e o Soldado Invernal tem o clima de um filme do MCU. Ou melhor, de um filme do Capitão América (para mim, Capitão América: O Soldado Invernal segue como a melhor criação do estúdio). Isso implica cenas de combate empolgantes e os primeiros 10 minutos do episódio já cumprirão essa promessa. Focando em Sam, a série abre suas portas, de cara, com uma perseguição aérea digna dos maiores blockbusters do cinema. Boa sorte achando outra série nesse patamar.


O que, entretanto, é superior ao trabalho da Marvel nos cinemas é a direção, particularmente na fotografia. A diretora Kari Skogland, que comandou todos os episódios da série, faz questão de deixar cenas básicas de diálogos mais interessantes ao colocar a câmera em locais inesperados e criativos. Ela utiliza distorção de vidros, luz e sombras, silhuetas e outras soluções semelhantes para elevar o visual de Falcão e o Soldado Invernal. Preste atenção como os closes em Bucky durante sua terapia revelam seu estado emocional claustrofóbico, ou como a filmagem dele chegando em seu encontro - demonstrado através da janela embaçada do restaurante - dão a sensação de entrar num território desconhecido. Afinal de contas, ele está mesmo.


Ainda há muito para vermos em Falcão e o Soldado Invernal. O enredo não é o foco do primeiro episódio e apenas algumas dicas do que virá são apresentadas antes da última cena, que apresenta um personagem importante para a história. Mas se esta estreia for uma indicação do que está por vir, essa série pode rapidamente se tornar o padrão a ser alcançado pelas próximas produções televisivas da Marvel.