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A Voz Suprema do Blues - Crítica do Chippu

A grande conclusão da carreira de Chadwick Boseman

Não tem como não falar de outra coisa. O texto de A Voz Suprema do Blues é sobre muitas coisas - racismo, arte, propriedade intelectual, trauma - mas o contexto em que o filme se encontra é inescapável. Essa é a última atuação da carreira do grande Chadwick Boseman após, sua morte em agosto como consequência de um câncer no cólon.


E sim, vê-lo aqui é tão bom e melancólico quanto você pensa. Estamos revendo alguém que admiramos tanto, celebrando o fato de que ele tinha mais alguma coisa para nos dar, mas há sempre a sombra do conhecimento de que essa era, de fato, sua última canção. Depois disso, acabou. E assim como fez em outro filme da Netflix em 2020, Destacamento Blood, Boseman parece estar atuando sabendo que o fim pode estar próximo. Eu nunca vou especular que ele sabia que ia morrer, um guerreiro como ele nunca desiste, mas a consciência de saber que cada atuação podia ser a última parece ter energizado suas performances em 2020, e aqui não é diferente.


Baseado na peça de mesmo nome de August Wilson e dirigido por George C. Wolfe (Um Limite Entre Nós), A Voz Suprema do Blues é estrelado por Viola Davis e conta também com nomes de respeito no elenco, Colman Domingo, Glynn Turman e Michael Potts. Todos eles são ótimos, mostrando uma grande variedade de emoções e capacidade de capturar a atenção em seus momentos. Por vir do teatro, essa é uma história que depende das atuações para se manter de pé. O roteiro é mínimo, os sets são poucos e o escopo é econômico. Davis em particular é uma força da natureza, demandando respeito em cada segundo em que está na tela, mesmo quando calada. Quando ela abre a boca para falar, ou especialmente cantar - ela interpreta Ma Rainey, a cantora de blues no centro da narrativa - não há dúvidas de que ela está jogando no mais alto nível.


Mas não há para onde fugir. Esse filme é de Chadwick Boseman e isso é impressionante. Considerando o quão boa Viola Davis é, dizer que ele rouba o filme dela parece um exagero, mas é a realidade. Sua atuação como Levee, um talentoso músico na banda de Ma Rainey que se sente pronto para voar mais alto, é uma força da natureza. Seja em expressões faciais, presença física, na entrega dos diálogos ou comunicação de emoções, Boseman nunca esteve tão bom. Ele nos deixou com seu melhor trabalho. Graças ao ator, Levee é sempre charmoso e divertido o suficiente para querermos passar tempo com ele, mas desequilibrado e perigoso para deixar claro que há muita profundidade e complexidade para não ser definido como como "mocinho" ou "vilão." T'challa, ele não é.


As atuações nesse nível são necessárias. A Voz Suprema do Blues, com rápidos 90 minutos de duração (ótima decisão considerando a natureza da história) se passa inteiramente numa tarde enquanto Ma Rainey e sua banda - todos negros - lidam com os donos brancos de um estúdio de gravação em Chicago. Ao longo do dia, as interações revelam visões sobre racismo, música e até propriedade intelectual. O filme é uma série de conversas e se passa em basicamente três locais - duas salas e uma rua.


Por conta disso, há momentos em que a natureza de peça fica mais do que clara e a direção de Wolfe, apesar de competente, não é capaz de esconder isso. Algumas cenas tem um ritmo um pouco mais devagar do que se espera de um filme com tantas atuações energéticas. Elas se prolongam e os cortes para outros locais nunca dão a sensação de que há mais histórias acontecendo, sempre que Wolfe decidiu cortar para simplesmente termos um gostinho de variedade visual. O peso para engajar a audiência, então, está todo nos atores para entregar, e eles estão à altura do desafio.


O resultado final é um bom filme abastecido de atores em seus ápices de performance. As atuações por si só não transformam A Voz Suprema do Blues em uma obra-prima da Netflix, mas certamente irão atrair prêmios. Se eles vierem, especialmente para Boseman, serão mais do que merecidos.


Nota: 3.5/5