Zona de Interesse: Poderoso filme de Jonathan Glazer apresenta o Holocausto de forma inesperada e brutal

Zona de Interesse: Poderoso filme de Jonathan Glazer apresenta o Holocausto de forma inesperada e brutal

Escolhendo com cuidado o que mostra e não mostra, Zona de Interesse retrata a banalidade do mal para realçar sua crueldade

Guilherme Jacobs
15 de fevereiro de 2024 - 8 min leitura
Crítica

O que devemos mostrar com nossas câmeras? Com o andar do Século 21 e a abundância de desgraças filmadas e compartilhadas em massa graças às ferramentas agora disponíveis, essa pergunta parece ganhar mais e mais relevância. Dia após dia, morte e destruição cruzam nossas telas. Estaria isso diminuindo nossa sensibilidade para o horrível? Ou denunciando os culpados ao nos informar de sua existência? Quais destas fotos e vídeos merecem ser vistas? Quais devem ser escondidas? Com Zona de Interesse, Jonathan Glazer volta ao mais elementar fundamento do cinema — o que a câmera mostra, e o que está fora do quadro — para levar essa conversa a um dos mais devastadores episódios da história.

Adquirido pela A24, Zona de Interesse abre com a família de Rudolf (Christian Friedel) e Hedwig Höss (Sandra Hüller) se banhando num pitoresco rio rodeado por árvores e um céu azul. Depois, eles voltam para a casa onde, ao longo de 106 minutos, os veremos celebrando aniversários, discutindo, lendo histórias de dormir, jantando e rindo. Em outro filme, essa suposta normalidade seria usada como ferramenta para tentar humanizar essas pessoas, gerando drama ao nos fazer simpatizar em algum nível com os Höss. Glazer, porém, jamais nos deixa esquecer quem eles são. Como pano de fundo dessas cenas, particularmente quando elas se passam no quintal florido da residência, está um muro cinzento e frio. Do outro lado, milhões de judeus são assassinados com métodos desumanos pelos nazistas no campo de concentração de Auschwitz, onde Rudolf é commandant.

Na descrição de Zona de Interesse disponibilizada à imprensa no Festival de Cannes, o próprio Glazer descreve seu hipnótico longa-metragem como algo sem autor. As imagens escolhidas, ele argumenta, não passaram por nenhum filtro. Isso, claro, é um exagero. Como qualquer outro, esse é um filme apresentado com o viés, gosto e olhar de seu diretor. A fala do cineasta, cujo Sob a Pele é um dos mais singulares sci-fi deste milênio, passa a fazer sentido quando percebemos a abordagem emplacada por ele para compor sua versão de um filme de Holocausto. Glazer inicia Zona de Interesse com vários minutos de uma tela preta acompanhada pela trilha sonora extraterrestre de Mica Levi; um prólogo para limpar nosso paladar como um gole de água com gás antes do café. Este quadro vazio nos convida a considerar aquilo que o preencherá, e o que dele será ocultado.

Para mostrar o impacto e maldade inerentes ao Holocausto, Zona de Interesse adota a banalidade. Passamos quase todo o tempo dentro da propriedade de Rudolf e Hedwig, interpretados por Friedel e Hüller como pessoas especializadas na arte da compartimentalização; conduzindo sua vida normalmente e ignorando os horrores vizinhos.

O local parece uma estação espacial, uma visão alienígena. A estranheza gerada pelo contraste do verde onde as crianças brincam e a parede dessaturada lhes cercando impede as atividades do lugar, por mais familiares e rotineiras que sejam, de perderem a qualidade chocante. Em certo momento, Rudolf e Hedwig discutem por causa do trabalho do homem — não por sua natureza monstruosa, mas só por uma decisão burocrática de seus chefes — e parecem um casal como qualquer outro, frustrados pela dificuldade de equilibrar as demandas profissionais do nazista e as necessidades de seus filhos.

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Glazer inclui esses episódios corriqueiros para enfatizar a inescapável verdade pairando por cada segundo de Zona de Interesse; a visão de Rudolf e Hedwig brigando e chorando, ou qualquer outra instância de um comportamento familiar, poderia ser uma tentativa equivocada de nos fazer entendê-los como humanos, mas os arredores do filme estão sempre invadindo nosso foco. Os cantos da tela viram memoriais apontando para o sangue derramado no campo de concentração. No caso específico da briga do casal, a volta para casa dos dois é paralela à marcha de dois soldados, uniformizados e armados, em direção ao centro de execução.

Quando não deixa aparente a fumaça de um trem trazendo novos prisioneiros ou das chaminés após uma queima, nossos ouvidos são o caminho pelo qual Zona de Interesse atribui o ar de desolação às pinturas de Glazer, como numa montagem das lindas flores cultivadas pela mulher. Gritos de dor permeiam as plantas e as banham no vermelho-carmesim dos crimes contra a humanidade realizados a apenas alguns metros de distância. Seja pelas músicas desconcertantes de Levi ou no trabalho sonoro impecável de Johnnie Burn, o som é uma das principais formas de Glazer contrastar a trivial narrativa dos Höss com a inevitável repulsa de saber seu papel na guerra. A muralha não é capaz de abafar o choro.

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A construção do outro lado jamais fica abstrata. O Holocausto não é transformado em metáfora. Auschwitz está ali. Sempre a poucos passos de distância. Sua existência é, de fato, uma presença, mas ela nunca perde o caráter palpável em Zona de Interesse. Glazer pode passar a maior parte do filme bloqueando nossa visão do seu interior, mas aquele centro perverso de escravidão é o maior personagem da obra. Glazer não precisa entrar nas câmaras de gás para dar a seus planos o peso dignos desse capítulo sombrio do século passado porque entende o significado de colocar diante de sua audiência uma visão, cortar para outra, e então para mais uma, e assim vai. Através desse passeio, percebemos o padrão. O quadro completo é compreendido.

Perto de seu final, Zona de Interesse vai à Auschwitz. Seu passeio pelos corredores vem de uma forma totalmente inesperada, e serve para pontuar os temas de Glazer; a necessidade de lembrar não só do que aconteceu, mas também do que aquilo representa. A ida a Auschwitz confere ainda mais destaque tanto ao assunto do filme, quanto à maneira como ele é dissertado. Novamente, é o que está visível (ou invisível) que nos diz tudo.

Erguer um memorial só faz sentido se ele contar a história do lugar onde é firmado. Auschwitz nos revela como o mal é indiferente. A diabólica oposição a ver o próximo como humano foi o pilar do partido de Hitler, e Zona de Interesse retrata essa crueldade justamente ao enxergar o que deveria ser a humanidade de seus personagens sendo apagada pelas circunstâncias onde se encontram. Nas mãos de Jonathan Glazer, é impossível deixar de lado o que aconteceu naquele campo de concentração precisamente porque ele coloca suas lentes no que aconteceu do lado de fora de seus muros, e não dentro deles.

Crítica publlicada em 20 de maio de 2023 durante o Festival de Cannes. Zona de Interesse estreia no Brasil em 15 de fevereiro de 2024.

Nota da Crítica
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Guilherme Jacobs
DISPONÍVEL EM

Zona de Interesse

Drama
Ação
1h 46min | 2023
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