The Second Act: Filme de abertura de Cannes fica sem combustível antes de nos conquistar

The Second Act: Filme de abertura de Cannes fica sem combustível antes de nos conquistar

Divertida mas repetitiva comédia de Quentin Dupieux conta com algumas das maiores estrelas do cinema francês

Guilherme Jacobs
14 de maio de 2024 - 6 min leitura
Crítica

Os filmes de Quentin Dupieux normalmente nascem de uma ideia inusitada para uma piada. Seja com os Power Rangers do cigarro em Fumar Causa Tosse ou no autoexplicativo Rubber: O Pneu Assassino, o diretor francês parece ter uma fonte inesgotável de premissas que, independente do quão bobas elas soem (ou por causa de quão bobas soem) conseguem render as mais inesperadas risadas, desde que o cineasta encontre mais e mais formas de desdobrá-las. Se o combustível da ideia acabar antes do filme, como é o caso em seu mais novo lançamento, The Second Act, a coisa fica complicada.

Estrelando alguns dos maiores nomes do cinema francês, incluindo Léa Seydoux, Louis Garrel, Raphaël Quenard e Vincent Lindon, o filme que abriu o Festival de Cannes 2024 é uma sátira cômica que não se satisfaz em meramente quebrar a quarta parede, e busca eliminar a barreira inteiramente. A história, se é que há uma, começa com os amigos David e Willy (Garrel e Quenard) caminhando em direção à lanchonete onde encontrarão Florence e seu pai (Seydoux e Lindon). Florence está apaixonada por David, mas este a considera insuportável, e decide levar o amigo para tentar redirecionar os sentimentos da mulher. Então, Willy começa a questionar os motivos de David para rejeitar alguém que ele descreve como linda e levanta a possibilidade dela ser trans. A conversa entra rapidamente no território de cancelamento, e David, desesperado, pede para Willy calar a boca. “Nós estamos sendo filmados,” ele diz, olhando para a câmera.

Entendemos que os quatro são atores num filme de qualidade duvidável. Daí em diante, The Second Act se desenrola com mais situações parecidas, como quando o personagem de Lindon desiste de atuar por conta da estupidez desse roteiro, e é convencido a retornar quando o convite de um diretor badalado dos EUA reacende sua paixão pelo ramo. Eventualmente, colocamos as peças no lugar e Dupieux usa essa estrutura de filme-dentro-de-filme para construir uma divertida, mas repetitiva comédia de erros. Enquanto o romance no qual atuam os coloca em unidade, o quarteto passa a discutir por praticamente qualquer coisa nos bastidores.

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Cria-se uma dissonância entre a ilusão e a realidade. Orientações sexuais, pêlos faciais e interesses comerciais são revelados como farsas a cada corte, e mesmo com o grau de sucesso das brincadeiras variado, The Second Act se mantém no centro de nossas atuações primeiro pela estrutura do roteiro, uma série de bonecas russas que, aliada ao ritmo de uma montagem afiada, dá ao filme um sentimento palpável de movimento, e em segundo lugar pelo trabalho dos atores. Astros absolutos em seu país e afora, o elenco mostra uma ótima versatilidade cômica, abraçando sem grandes reservas o ridículo e o exagerado, um pré-requisito para atuar num filme de Dupieux.

The Second Act, contudo, não tem muito para onde ir quando seu argumento inicial se faz claro. Dupieux, claro, arranca diversos risos, mas não o suficiente para sustentar o filme mesmo com a breve duração de menos de 80 minutos. Se o gracejo inicial sobre o jogo de fumaça que é fazer cinema até captura nosso sorriso, então as jogadas seguintes que brincam com o estado precário do meio esvaziam pouco a pouco o ar do balão. Uma reviravolta (previsível) sobre o uso de inteligência artificial na construção do filme dentro de The Second Act até ajuda Dupieux a trocar de marcha e imaginar mais alguns truques, mas os conceitos nunca são desenvolvidos ao máximo.

Talvez esse seja o lado ruim de se trabalhar num ritmo tão rápido. Dupieux tem um novo filme a cada ano, às vezes dois, e se sua cabeça é capaz de bolar novidades sem cessar, então aqui temos um ótimo exemplo do que acontece quando seu interesse parte para a próxima coisa antes que a atual chegue em seus créditos. Por conta da disposição do elenco de abraçar os piores elementos de seus personagens, há sempre uma nova dose de humor ácido em cena, e The Second Act nunca chega a se tornar irritante ou cansativo.

O problema maior vem quando Dupieux decide colocar uma dose dramática em tela e nos pede para nos importar com um coadjuvante (Manuel Guillot) numa tentativa vã de revelar as verdadeiras vítimas do egocentrismo, algoritmo e vaidade do cinema de estúdio moderno. Essa chamada à consciência, contudo, não condiz com a loucura presente até ali, e mais uma vez sugere que o diretor, por mais criativo, eventualmente se esgota. É um final que, ao tentar sublinhar todos os temas discutidos na obra, só aumenta nossa impressão de que o que vimos é apenas um primeiro rascunho.

Nota da Crítica
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Guilherme Jacobs

The Second Act

Comédia
1h 16min | 2024
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