Sem Coração transforma a praia alagoana num lugar de vida e morte

Sem Coração transforma a praia alagoana num lugar de vida e morte

Dirigido por Nara Normande e Tião, filme traça o amadurecimento junto com a morte da infância

Guilherme Jacobs
7 de novembro de 2023 - 6 min leitura
Crítica

A praia é um lugar de vida e morte em Sem Coração, o belo e atmosférico longa-metragem de Nara Normande e Tiãoque representou o Brasil no Festival de Veneza deste ano. A visão de personagens emergindo entre as ondas e puxando ar sugere uma espécie de renascimento, usando a água salgada como fonte interminável de renovação. Chegue na areia e vá entrando no continente, porém, e o ambiente costeiro ganha um ar de morte, como uma baleia encalhada cujo coração dá suas últimas batidas.

É nesse litoral onde Tamara (Maya de Vicq) vive, brinca e se apaixona. Nascida numa casa de classe média, ela tem mais interesse em manter-se cercada de amigos sem o mesmo poder aquisitivo de sua família, preferindo passear com eles, invadindo casas vizinhas para ver fitas pornográficas (são os anos 1990), acampando em hotéis beira-mar abandonados e pulando no mar diariamente. Ela aproveita cada um desses momentos como se fosse o último, em grande parte porque sua mudança para Brasília, onde ela irá estudar e morar sem data para voltar, se aproxima.

Abastado de algumas das mais marcantes imagens do cinema nacional recente, Sem Coração traça esse período da vida da garota com nostalgia e melancolia. Em grande parte, Sem Coração é um filme de hangout, e passamos boa parte do tempo vendo Tamara conversando com o reflexivo Binho (Kaique Brito), um menino gay que sofre nas mãos de adultos locais, rindo com o engraçado Galego (Alayson Emanuel, magnético), cujo sorriso fácil esconde uma vida de crimes e abuso, e principalmente, observando atenciosa a misteriosa Sem Coração (Eduarda Samara), uma pobre menina local sobre quem há algumas lendas urbanas, mas nenhuma tão dura quanto a verdade.

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Inspirado em parte na juventude da própria Normande, Sem Coração traz uma linguagem saudosa familiar em produções do tipo, quando realizadores revisitam com olhar atento e curioso os momentos definidores de sua vida. As tardes preguiçosas, brincadeiras proibidas e descobertas sexuais são todas encenadas pela direção com o ardor do desejo, mas correndo por baixo disso tudo, percebe-se um pesar. Se Tamara encara todo dia como seu último ali, segue-se que o Alagoas está, para ela, morrendo.

Se a saudade pauta essa visita ao passado, então Normande e Tião estão tão interessados na alegria da memória quanto na tristeza de saber que aquilo acabou. O maior feito de sua direção é como ela trafega entre essas duas emoções de maneira orgânica e efêmera. Sem Coração opera simultaneamente num mundo palpável, onde o jeito de falar, andar e existir denuncia o conhecimento específico de quem tem aquele lugar e aquelas pessoas inseridos em seu DNA, mas também um mundo fugaz que vira vapor quando você o deixa; como um sonho cujos detalhes são esquecidos, mas cujo sentimento permanece de maneira indescritível.

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A câmera de Evgenia Alexandrova passeia pelos cenários encontrando visões dignas de devaneio, e Normande e Tião exprimem dessas composições plano após plano de beleza e humanidade. Sem Coração se desdobra de forma natural, mas Normande e Tião não parecem confiar inteiramente nessa abordagem, e conforme seu filme se aproxima da conclusão, o roteiro apela para dramas fabricados e telegrafados em busca de choque. Personagens são plantados com a clara função de inserir violência, em especial nas vidas de Binho e Galego, e alguns destinos se tornam aparentes muito antes de serem confirmados em cenas cuja articulação minuciosa parece ir contra a maré do filme.

Nota da Crítica
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Guilherme Jacobs

Sem Coração

Drama
1h 31min | 2023
sem-coracaonara-normandetiaomaya-de-vicqeduarda-samaracriticachippu-originalsguilherme-jacobs

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